quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Folião de uma vida inteira

Quando era criança, Raimundo Nonato Ferreira (foto) “queria ser tanta coisa...”. Filho de agricultores, migrou de Marco (206 quilômetros de Fortaleza) para dar corda à infância, na casa de uma tia, rua Padre Guerra, Parquelândia. “Queria viver na animação”, respondeu (responde) à vida. Ruim de futebol, mas bom de samba, inventou um bloco como escola. Concluiu o primeiro grau; a faculdade, ele fez entre a Parquelândia e o Planalto Pici. Em cada morada que pousa, Raimundo Nonato abriga o Carnaval.
O presidente da Escola de Samba Imperadores da Parquelândia abre a porta do estreito sobrado da rua Alagoas com a mão “cheia de cola”. Espécie de alquimista, transformava papelões e pedras falsas em esplendores e coroas. “Isso aqui é como se fosse uma faculdade. Você fica criando, desmancha uma coisa, faz outra”, mostra as estantes, as mesas, os armadores de rede plenos de penas e plumas. Raimundo Nonato, sapateiro de profissão, é diplomado em fantasias e adereços. Sabe multiplicar o verde, o vermelho e o branco da bandeira da escola em arco-íris.

O menino do Interior cresceu para ser presidente. Se não era o dono da bola, fez uma herança de tamborins, pandeiros, cuícas: “Os outros iam abandonando, casando, e eu, ficando... Comprávamos um instrumento fiado, pra dois ou três pagar. Não pagavam. Eu ia pagar e ficava com o instrumento, passava a ser o dono”. Rua Padre Guerra, ano 1975: dali partia o bloco de sujos de 25, 30 adolescentes, rumo ao corso da Aguanambi. “Era só a curriola”, refaz seu Raimundo, os 16, 17 anos.

Primeiro, brincavam como a turma do Capim Gordura. Com seu Raimundo puxando o bloco, passaram a se chamar Mocidade Independente de Padre Guerra, “eu morava lá”. Até que foram convidados a participar, oficialmente, do Carnaval de rua. E a escola ganhou samba e corpo: Imperadores da Parquelândia. “Tiramos Padre Guerra porque ficava muito reduzido a mim. Botamos um nome que abrange o bairro”, determinou o presidente. Isso, em 1981. Tempos de bingo, rifa, piquenique, tertúlias para arrecadar dinheiro. Ora na casa de seu Raimundo, ora na “churrascaria exclusiva pra gente fazer, o Besouro de Ouro. Foi como começamos”.

A churrascaria ainda é ponto de encontro dos Imperadores. É lá que comemoram o desfile, campeões, ou não. “Quando desfila legal, terminou, acaba o estresse. A gente fica satisfeito, o cansaço já era. Já ganhamos o título!”, festeja seu Raimundo. A propósito, na sala do sobradinho, estão os quatro troféus dos vice-campeonatos de 1993 a 96.

Comerciante nos outros dias do ano (tem uma loja de sapatos no Jardim Guanabara), o presidente da Imperadores da Parquelândia conformou-se em torcer futebol pelo rádio. Trocou o estádio de futebol pela avenida iluminada. Foi cowboy, entre tantas outras coisas. E continua realizando o sonho de infância, todo fevereiro. “Quando chega perto dos palanques, vem aquela emoção. Assim, como um artista quando vai entrando no palco”.


E-MAIS

> Cerca de 320 pessoas compõem a Escola de Samba Imperadores da Parquelândia. São passistas que também vêm de bairros como Jardim Guanabara, Carlito Pamplona, Rodolfo Teófilo, Bela Vista, Parque Araxá. Três costureiras, um magote de sobrinhos e outros voluntários colocam a escola na avenida. “À noite é que aparece mais gente pra ajudar”, conta o presidente da agremiação, Raimundo Nonato Ferreira.

> Este ano, dez alas vão atrás do samba-enredo “Amazônia, a luta vai continuar”. A composição de Maria Ivete da Silva Barros reencontra Chico Mendes (1944-1988), seringueiro que se tornou célebre pela luta em favor da preservação da Amazônia. A bateria, de 60 instrumentos, puxa este refrão: “Nossos imperadores/ neste belo Carnaval/ vem preservar a floresta/ lindo verde natural”.

> Os ensaios começaram na primeira semana de janeiro e seguem, às terças e quintas-feiras, depois das 18 horas, “no fim da (avenida) Jovita Feitosa, ao ar livre”, convida Raimundo Nonato. A Escola de Samba Imperadores da Parquelândia desfila no dia 24 próximo, às 18h20min. “Estou achando bom porque, ano passado, desfilamos uma hora da madrugada e não tinha mais ninguém”, festeja.

> Folião de uma vida inteira, o presidente da Imperadores da Parquelândia não se conforma em brincar só um dia de 40 minutos. Queria desfilar os três dias. E calcula ser o Pré-Carnaval um negócio melhor: “Você brinca cinco sábados. Né possível que não mate o verme!”. Outra queixa contra a Prefeitura é o atraso na liberação da verba. A escola espera R$ 14 mil, prometidos em edital. “Nessas alturas, ninguém recebeu um centavo”, reclama.


(Matéria transcrita do jornal “O Povo”, edição de 12/2/2009)

Um comentário:

Catarina disse...

oi juracy...

é muito bom a gente saber de gente de garra como o seu Raimundo...
e é muito importante a gente saber da luta perseverança e dessa alegria q deve ser o coração desse folião...
a gente v o povo passando na avenida e nem imagina a luta q foi chegar até ali...
agradeço por esse belíssimo artigo... dá até vontade da gente entrar de cabeça e participar dessa preparação toda...

bjsssssssssss primo e tudo de bom pra VC.