terça-feira, 25 de agosto de 2009

Entrevista com Belchior


A história do desaparecimento do Belchior continua rendendo buxixos pelo país afora. Após a matéria exibida no “Fantástico”, muitas pessoas garantem tê-lo visto ultimamente passeando por várias cidades brasileiras, bem como no Uruguai. Segundo consta, ele está recém-casado com uma mulher linda e muito dominadora e resolveu sumir porque estava sendo perseguido por um ex-produtor, que lhe cobrava milhões de uma dívida que, segundo Belchior, tinha sido forjada pelo dito. Outra versão dá conta que Belchior, auxiliado pela atual esposa, aplicou um golpe em várias pessoas e desviou alguns milhões que havia recebido de diversas fontes para produção de espetáculos dele e de outros artistas.
Enquanto não se sabe da história verdadeira, aproveito para mostrar a vocês a íntegra da entrevista que fiz com Belchior no Hotel Luzeiros, na avenida Beira-Mar (Fortaleza), no dia 27 de agosto de 2007. Na entrevista, que foi publicada dias depois no extinto jornal “Folha do Ceará”, ele falou sobre a carreira artística, os novos projetos e outros babados relacionados à cena musical cearense. Confiram:

CADA VEZ MAIS LATINO-AMERICANO
O cantor e compositor Belchior é, como todos sabem, um dos nomes de proa do movimento musical que se convencionou chamar de “Pessoal do Ceará”, do qual fizeram parte também Fagner, Ednardo e outros artistas conterrâneos que despontaram para o cenário nacional no início da década de 70. Semana passada, quando esteve em Fortaleza para participar do programa “Nomes do Nordeste”, no Centro Cultural Banco do Nordeste, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes nos concedeu esta entrevista exclusiva, ocasião em que falou sobre sua trajetória artística, as músicas de sua autoria que marcaram várias gerações, os novos projetos, enfim, um verdadeiro passeio por essa longa estrada de sons e palavras que, segundo ele, o vem deixando cada vez mais latino americano. E engana-se redondamente quem pensa que, por não ter nenhuma música tocando na mídia, Belchior esteja parado. “Pelo contrário. Estou trabalhando mais do que nunca”, diz o sobralense.
JM – O que representou pra você a participação no programa “Nomes do Nordeste”?
Belchior – A certeza de que somos cada vez mais reconhecidos pelo trabalho musical desenvolvido há tanto tempo e que tantos bons frutos geraram para consolidar o Ceará como um verdadeiro pólo cultural, dando continuidade assim ao que havia sido feito antes por artistas talentosos como Lauro Maia, Humberto Teixeira, dentre outros. Durante a entrevista tivemos oportunidade de fazer uma viagem ao túnel do tempo, falando e cantando coisas que remetem à Sobral, Fortaleza, São Paulo, aos primeiros encontros com antigos e novos parceiros, ao movimento estudantil, aos festivais de música… Foi um negócio bacana, principalmente por conta do calor humano que veio da platéia.
JM – Com qual idade você começou a se interessar por música?
Belchior – Desde a infância sempre fui muito influenciado pelo meu pai, que tocava flauta e saxofone, e minha mãe, que cantava em coro de igreja. Além disso, tinha tios poetas e boêmios e ouvia muito rádio, quando os cantores que faziam sucesso eram Ângela Maria, Cauby Peixoto, Nora Ney… Fui cantador de feira e poeta repentista e estudei música coral e piano. Ainda em Sobral fui programador musical de rádio. Em 1962 vim para Fortaleza, onde estudei Filosofia e Humanidades, enveredando depois pela Medicina, curso que abandonei no quarto ano para dedicar-me à carreira artística.
JM – Hoje, com tantos anos de estrada, você sabe quantas músicas carrega na bagagem?
Belchior – Agora você me pegou. Mas acho que são mais de 300 composições gravadas por mim e por intérpretes como Elis Regina, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Ivan Lins, João Bosco, Toquinho, Jair Rodrigues, Vanusa, Wanderléa, Ney Matogrosso, Engenheiros do Hawaii, Los Hermanos, Fagner, Ednardo, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Pedro Camargo Mariano, Oswaldo Montenegro, Jessé e Chico Anysio, além da cantora italiana Gigliola Cinquetti, a dupla uruguaia Larbanois & Carrero e o estadunidense Leo Robinson.
JM – E destas, qual a que mais lhe gratifica como cantor e compositor?
Belchior – Cada música tem a sua importância, a sua posição como referência de uma época, de um momento. Para mim, a música fundamental é “Como Nossos Pais”, que virou um dos hinos da nossa geração. Ela resume todo o meu trabalho. Agora, com certeza, a que me identifica mais com o grande público é “Apenas um rapaz latino americano”. Tem outras que são bastante solicitadas nos shows, como “Galos, Noites e Quintais”, “Todo Sujo de Batom”, “Medo de Avião”, “Paralelas” e por aí vai…
JM – O fato de não ter nenhuma música tocando atualmente em rádio e televisão o incomoda?
Belchior – De jeito algum. Estou trabalhando mais do que nunca, fazendo shows, estabelecendo novas parcerias, participando de projetos especiais. Consegui cativar um público que é muito interessado em música construída de forma mais poética, que tem uma linguagem que ultrapassa essa questão da comunicação pura e simples. Que gosta de uma canção que é mais do que uma massagem pura para os ouvidos do que simplesmente uma construção para corações e mentes. Não me vejo fazendo sucesso sem o padrão poético-musical que construí ao longo desses anos. Prefiro manter meu trabalho coerente, sem deformações.
JM – É verdade que, além da música, nos últimos anos você tem desenvolvido atividades relacionadas a artes plásticas?
Belchior – Não me considero um artista plástico. Faço desenhos, pinturas, caricaturas, mas não gosto desse rótulo. E esse interesse vem desde a universidade, do começo do meu trabalho, ilustrei até capas dos meus CDs. Faço isso porque tenho espírito de renascentista, mas não pretendo completar minha música com a minha pintura, nem minha pintura com a minha música.
JM – Para encerrar, gostaríamos que você falasse sobre seus projetos atuais e/ou futuros.
Belchior – Estou preparando um CD de músicas inéditas, feitas com novos parceiros, e uma caixa de DVDs com três volumes que promete ser a grande retrospectiva de minha carreira, sem deixar de acrescentar material musical inédito. Esses novos projetos ainda não têm nome. O DVD será um trabalho mais apurado, que vai demorar a ficar pronto. Estou trabalhando nisso com muito cuidado e carinho. Quero fazer um trabalho de porte cinematográfico e não apenas essa coisa de filmar um show.

2 comentários:

Izaira disse...

Muito boa, primo!
Você é um grande jornalista! Devia aproveitar e fazer este Curso (que os outros fazem e não têm nem um pedacinho de sua competência e discernimento)! Vá lá, primo! Você é professor!
Beijos

Juracy disse...

Valeu, prima! Parece que vc adivinhou minha intenção. Já estou me preparando para continuar o curso a partir de janeiro. Beijo!